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Shridhar Jayanthi

Sobre Crítica de Obras Artísticas e Desconstrução

5 min read

Epitemic Status: rascunho

Quando eu assisti Evangelion da primeira vez, eu não estava enxergando aquilo como descontrução de um gênero. Afinal de contas, fora os programas estilo Jaspion e Changeman na finada TV Manchete e Transformers, eu não conhecia muito bem o gênero "mecha" nem a tradição Anime. Eu assisti e gostei bem dos personagem doido e dos robô gigante e daquela evolução psicológica dos personagens e daquele final DIY onde o público é obrigado a dar sentido à coisa toda. Sem contar que eu tinha uns 16 anos e mal sabia o que era desconstrução de gênero - eu ainda estava começando a entender o conceito de dialética na arte.

Com a presença do Evangelion no Netflix, ocorreram duas coisas que eu meio que esperava: (1) ninguém que já não era fã iria assistir e achar genial e (2) a galera que era fã iria voltar a discutir a obra. No rescaldo desse segundo grupo, eu vi um texto ou tweet, não lembro, que lamentava o Evangelion ser o primeiro anime mecha de muita gente. Por ser uma desconstrução, muito do subtexto de Evangelion iria passar batido pra essas pessoas.

Acho que há algumas observações a ser feitas sobre consumo de arte, gênero e desconstrução. Um consumidor que consome uma obra vai sempre consumir a obra, numa primeira etapa. O apego pelo gênero decorre do prazer no consumo da obra e pela vontade de querer "mais do mesmo" - e aqui eu estou falando daquele apego mais puro mesmo que surge entre o consumidor e a obra. O amor pela obra que surge por questões sociais - peer pressure, hipsterismo, FOMO, etc existe e é forte, mas eu vou fingir que isso não importa nessa análise.

O querer "mais do mesmo" ser direcionado ao gênero às vezes é acidental. Pra mim, o "mais do mesmo" costuma ser direcionado pro autor. Por exemplo, eu gosto bastante do Paul Thomas Anderson e do Stanley Kubrick, autores que não se limitam a um gênero. Mas o "mais do mesmo" também pode ser movimento artístico - pessoalmente adoro qualquer coisa que saiu do surrealismo ou do vaporwave. Às vezes é gosto pela estética mesmo: me amarro em techno ambiental de Kraftwerk a Bonobo.

De toda forma, o gosto artístico nasce do consumo com a primeira obra, mas não necessariamente se direciona pro gênero. Na prática, ele se direciona pro elemento da obra que o consumidor gostou mais. Se ele gostou da comunicação estabelecida com o autor, ele irá querer mais do autor. Se ele ficou deslumbrado com o ambiente construído pela obra, ele irá atrás de mais obras com a mesma estética. Se o fascínio é com o zeitgeist em que a obra se insere, talvez ele se interesse pelos movimentos.

Isso meio que me leva ao segundo ponto. Obras que desconstroem um gênero necessariamente transcendem o próprio gênero. É impossível desconstruir sem ser meta. A desconstrução é pegar um aspecto essencial do gênero e olhar pra ele com olhar de um alienígena que é capaz de falar 'que ridículo.' Segue, portanto, que uma obra desconstrutiva bem feita é uma obra que dialoga com os outros gêneros e, portanto, é uma porta de entrada perfeita pra novos consumidores. Acho que é o meu caso: eu gosto muito de romances que focam na vida interior dos personagens e o fato de Evangelion transcender animes mecha pra explorar essa possibilidade é, provavelmente, o que faz de mim um fã dessa obra.

É esse o problema que eu tenho com o argumento de Evangelion ser ruim pra uma pessoa que não está versada no gênero mecha. Eu concordo que ela irá perder parte do subtexto. Eu mesmo só fui entender algumas sacadas do Evangelion - por exemplo, a questão de que o abandono de Shinji era um comentário sobre a obsessão que os construtores de mecha sempre apresentam nesses desenhos, ou sobre como a sincronização do piloto com o mecha ser uma leitura absurda da identificação que os pilotos de mecha tem com seus robôs - assistindo umas séries Gundam depois de assistir Evangelion. Mas, a rigor, isso não é fundamental. Dizer que uma obra só pode ser consumida se o consumidor estiver preparado para apreender todas as nuances de uma obra é absurdo. Se o charuto é ou não só um charuto, a rigor, não importa pra quem está fumando o charuto. O que importa é se está funcionando pro fumante.

E isso me traz ao último ponto: a relação entre o consumo, a mediação que a crítica faz dessa relação e a forma como isso tá sendo potencializado com mídias sociais. Um ponto que me parece auto-explicativo.